O Cavaleiro e a Curva do Mundo

Imaginemos Dom Quixote outra vez em marcha, montado não sobre Rocinante, mas sobre um foguete, mirando o horizonte com sua luneta de papel alumínio. A cada passo ele esbarra em novos moinhos, que hoje tomam a forma de teorias que desafiam não mais a honra, mas a física. Um desses moinhos gira com tamanha força que até desafia a gravidade: a teoria da Terra Plana.
A velha e redonda Terra, que gira com paciência em torno do Sol desde antes da invenção dos espelhos, segundo alguns é uma pizza celeste com borda congelada. Quixotes modernos, mas às avessas, se armam não com lança, mas com vídeos de 30 segundos no TikTok e partem em cruzada contra séculos de ciência.
No século III antes de Cristo, o sábio grego Eratóstenes conseguiu provar que a Terra era redonda e ainda calculou o seu tamanho com uma precisão impressionante, tudo isso usando apenas uma vara. Ao meio-dia do solstício de verão (o dia mais longo do ano), no Egito, na cidade de Siena, o Sol estava exatamente em cima, e por isso uma vara fincada no chão não fazia sombra. Ao mesmo tempo, em outra cidade chamada Alexandria, que ficava ao norte de Siena e estava no mesmo meridiano (ou seja, alinhada na direção norte-sul), uma vara igual projetava uma sombra. Eratóstenes mediu o ângulo dessa sombra em Alexandria e descobriu que ela formava cerca de 7,2 graus, que é 1/50 de um círculo completo (360 graus). Isso significava que a distância entre as duas cidades representava 1/50 da circunferência total da Terra.
Sabendo a distância entre Siena e Alexandria (que era conhecida na época), ele simplesmente multiplicou esse valor por 50 e chegou a uma estimativa de 46.620 km para a volta completa da Terra. Hoje sabemos que o valor exato é cerca de 40.030 km, ou seja, o erro dele foi de apenas 16%, o que é impressionante considerando os recursos da época.
Einstein, um verdadeiro Sancho Pança da razão cósmica, desceu até o sertão do Nordeste brasileiro, em Sobral, no ano de 1919, para comprovar que a luz se curva diante da gravidade. A Teoria da Relatividade Geral previu, e durante um eclipse solar, lá estavam astrônomos britânicos e brasileiros a fotografar estrelas próximas ao Sol para confirmar que, sim, até a luz respeita a curva do mundo. O universo curvado de Einstein estava, enfim, comprovado.
Em um mundo plano, voos comerciais seriam bem mais curtos. Voar de São Paulo a Tóquio seria um pulo de carpa sobre um charco cósmico. No entanto, os aviões seguem suas rotas em curvas, como se dançassem no ventre de uma esfera. Isso se chama ortodromia, o caminho mais curto sobre uma superfície curva. Só funciona porque… surpresa! A Terra é uma bola. Achatar essa ideia seria como tentar dobrar o globo terrestre como se fosse um mapa e ainda por cima acreditar que a Antártida é uma muralha de gelo saída de uma série de fantasia.
E por que, afinal, nos incomodamos tanto com quem acredita nisso? Talvez porque, no fundo, gostaríamos de resgatar essas pessoas da caverna ou da borda do disco, mas é preciso aceitar: há quem prefira viver no avesso da razão, e tentar puxá-los para a luz pode ser como tentar convencer Dom Quixote de que os moinhos não são gigantes.
Que fiquem, então, em suas crenças, com sua vergonha. Nós, seguimos nosso caminho com o espírito leve, com os pés na Terra (esférica) e a cabeça nas estrelas, que aliás, também são redondas.

